Você sabe o que é educação socioemocional? Nós entrevistamos o professor do Programa Semente, Rodrigo Candido, sobre seu trabalho com esse tema importante para o desenvolvimento social, emocional e educacional de nossos alunos.

Confira a seguir a entrevista pingue-pongue na íntegra e descubra mais sobre o Programa Semente e como ele contribui para a educação de nossos alunos.


Como você começou a trabalhar com o Programa Semente? 

Eu recebi o convite no início do ano passado. Foi uma proposta bem diferente e como não passava pela nossa cabeça a pandemia que viria. 

Então foi assim, a gente abraçou a ideia, teve uma divulgação em um hotel em São Paulo e reuniu muitas escolas que participariam com o programa.

Nós fomos e já brilhou os olhos lá, né? Então aqui no colégio começou em fevereiro de 2020. 

E foi pelo colégio que você teve esse contato ou foi por terceiros? 

Não, o primeiro momento foi aqui. Eles mandaram a ideia, não sabia do que se tratava e acredito que eu, os outros professores que foram convidados e a própria escola só entendemos de verdade quando a gente chegou lá nessa apresentação.

Como você trabalha a proposta do Programa? 

Está sendo muito positivo, não só para os alunos. Mas, para nós que trabalhamos também. 

Ano passado começou eu, a Débora e a Valéria. Era a Valerinha com os 6ºs e 7ºs, a Débora ficava com os 8ºs e eu com os 9ºs.

A Débora saiu e esse ano ficou 6ºs e 7ºs com a Valéria, 8ºs e 9ºs comigo. 

E tem ajudado muita gente também, né? A gente vê que quando você estuda o material, primeiro vemos o que serve para gente.  

Em todos os aspectos que eles comentam mexe com nossa vida particular, nossa personalidade e a gente precisa modificar isso para que a gente possa mostrar para os alunos.

Porque é mais que uma matéria, na matéria você explica o conteúdo. Se você usa isso ou não ok, os alunos não sabem. 

Agora o Semente, o que você planta ali você precisa demonstrar diariamente na sala de aula. Porque é automático, os alunos vão falar “ué, você ensino sobre isso mas não pratica”.

Então a gente tem que se modificar também, então é muito positivo. 

E qual o maior desafio em estar trabalhando com o Semente? 

O maior desafio é eu corrigir as minhas atitudes.  

E sua dificuldade está muito grande ou é algo em progresso, um passo de cada vez? 

Não, eu achei que seria mais difícil. Mas, quando a gente vê que melhora a gente como pessoa, a pessoa se entrega cada vez mais.

A gente faz e os alunos reconhecessem isso.  

Por exemplo, o Ensino Médio não tem o Programa Semente. Mas, eles comentam “Nossa prô, você mudou tanto do ano passado pra agora. Foi a pandemia, né?”.

E nem foi tanto. É mais porque a gente vê no material e planta em nossa vida e em outras pessoas, como os alunos do Médio que não sabem do Programa Semente e eles percebem isso. 

Então isso te estimula ainda mais. 

Você acha os alunos do Médio estão absorvendo um pouquinho dessas mudanças sem as aulas do Semente? 

Absorvem tanto pelos meus comportamentos. 

E é impossível a gente continuar, por exemplo, eu dou aula de espanhol também e em algum momento você implantar de forma disfarçada ali, sem falar de onde você tirou aquela opinião ou como você aprendeu aquele comportamento. 

Então, é do Semente e mesmo sem querer a gente passa para outras turmas que não tem. 

E como você trabalha os conteúdos? 

A gente tem o livro, a gente segue uma orientação. Tem os vídeos que são muito explicativos.  

Então tem a parte de leitura, a gente vê o que aquilo representa na nossa vida. Por exemplo, a gente fala sobre reconhecer as emoções e eles começam trabalhando com 4 emoções: a raiva, o medo, a alegria e a tristeza. 

São sentimentos que todos nós carregamos com a gente o tempo todo, mas como reconhecer isso? O que nos causa isso? 

A alegria é mais fácil de reconhecer quando alguma coisa boa está acontecendo na sua vida. Mas, e nas outras que são negativas e às vezes a gente está triste e não sabe o por que?

Então é assim, como que a gente descobre? Como que a gente pode pedir ajuda e oferecer ajuda quando a gente reconhece isso em alguém? 

Então assim, todos os conteúdos do Semente tem a ver com o nosso dia a dia. 

Todos, parece que eles pegaram uma pessoa desde o momento que ela nasce até chegar na maioridade, na 3ª idade, na fase idosa e eles vem aspectos que o ser humano passa durante a vida. 

E o material parece que desenrola isso do início ao fim. 

Então é assim, toda a nossa vivência. Tudo que os alunos fazem, eles tem experiência própria, não tem nenhum tema que os alunos “ah, nunca passei por isso”. Todos os temas eles já passaram por isso. 

E como tem sido o desempenho deles com o Semente não só durante as aulas de espanhol também? 

Isso me surpreendeu bastante. Eles, no ano passado, como a gente tava com a aula online, 100%, já comecei a notar que nas aulas do Semente.  

Turmas que eu tinha dobradinha, uma de Semente e outra de espanhol. Então tipo, eu tava no Semente e eles participam, eles gostam de se expressar, eles querem ser ouvidos, então eles tem esse espaço de ideias, de dar exemplos, de dar conselhos para os amigos quando tem uma divergência de situação. 

E aí quando era aula de espanhol, eles ficavam mudos. E eu falei “Mas gente, vocês estavam participando até agora. Por que que do espanhol não?”. 

Então eu já vi uma diferença aí, eles se entregam mais ao Semente. Eles querem muitas vezes expor opiniões, diferente de qualquer outra matéria.

Você acha que por eles terem mais liberdade de opinar, de se expressar no Semente em relação as outras disciplinas que eles costumam tirar as dúvidas, mas essa é uma questão de crescimento pessoal… 

É, e eles dão exemplos deles. O que é diferente quando eu dou os meus exemplos. 

No Semente, eles falam sobre eles e eles gostam disso. E chega ao ponto de eu ter que ir segurando, tipo “tudo bem gente, vamos prosseguir a questão”, porque todos eles querem falar. 

Hoje, a gente tava falando de discordar com respeito. 

Todos tem um espaço, todos podem defender suas ideias. A gente não é obrigado a seguir e concordar, mas existe respeito. 

Então isso leva a ter cuidado com as palavras.  

O material, por exemplo, eles davam frases “você fala bem inglês, mas você pode melhorar”. Só esse ‘mas’, ele já é negativo. 

“Você fala bem, mas você pode melhorar”. Como que a gente pode ter uma outra forma de trato?

“Nossa você fala bem em inglês e acredito que você ainda vai falar muito mais” ou “até acredito que você pode ajudar outras pessoas”. 

Então, existem formas de falar que você impulsiona a pessoa ainda mais na vontade dela.  

E esse cuidado eu vejo neles no dia a dia. Eles não são perfeitos, tem muita coisa que tem que mudar.  

Mas, o comportamento deles muda. A forma de tratar o amigo às vezes os próprios professores mesmo. 

Você acha que a família nota essas mudanças? 

Notam também. Tem pais hoje em dia que me conhece como professor do Semente e tipo “ah, mas é do espanhol também?”, porque o nosso comportamento muda.

Muitos deles acompanhavam a aula do Semente quando eles estavam em casa até o ano passado, inclusive nós tivemos um fato essa semana de uma mãe vir e conversar com a gente.

Ela veio trazer uns “problemas”, mas no final fez questão de falar “eu acompanhava todas as aulas do Semente e me fazia tão bem”. 

E o Semente tem muitas atividades que pede para eles fazerem entrevistas com os mais velhos, com os pais, com os avós.  

Por exemplo, quem hoje em dia dá atenção para os avós? É muito difícil.  

Então, eles fazerem uma entrevista querendo saber um momento muito importante na vida dos avós seja positivo ou negativo, sentar com os avós, os avós se emocionarem e chorarem.

O material, a matéria do Semente causa essa situação. “Nossa prof, não imaginava que meu avô tinha passado por isso, isso e isso”, “e aí, foi bom pra você?” “muito, agora entendo porque ele é meio rabugento e não sei o que”…

Olha o que causou uma atividade que ele tinha que fazer em casa, então chega na família também. 

Você utiliza algum recurso externo nas suas aulas? Conteúdos além do Semente? 

Sim, os filmes. Esse ano a gente trabalhou um filme lindo que é “Como uma estrela na Terra”, um filme indiano que retrata uma criança que tem uma deficiência e como ela é vista pela sociedade, pela escola e pela própria família.

Aí a gente trabalhou a empatia. Imagina, se coloca no lugar dessa criança. O que poderia ser feito?  

Antes de concluir o filme a gente debate e vemos o que acontece no filme. “Bateu com a ideia de vocês? Ótimo.  

Então olha só… Será que o ser humano, quando ele usa da empatia, ele alcança resultados iguais? E tipo, 80% da sala falou a mesma coisa que aconteceu no final do filme antes deles saberem.

Então, a gente usa filme também. E dependendo do assunto a gente pode buscar notícias e situações que estão acontecendo no mundo e é muito fácil.

Se você pegar tipo o Afeganistão ou a vacina, “usar ou não usar a vacina?” “acreditar ou não?”, discordando com respeito. 

Se você pega a situação do Afeganistão, daquele caso do avião, empatia. Imagina o desespero daquela pessoa de querer sobreviver, ela chegar ao estágio de loucura de querer grudar no avião e achar que ela vai conseguir viajar milhões de quilômetros para sair daquele lugar.

Dá para trabalhar tudo, notícias, acontecimentos, os filmes. 

E eles já trouxeram conteúdo para você? Conteúdo de que eles vivenciaram? 

Sim, sempre. Hoje, por exemplo, a gente fala de toda a carga negativa que o mundo vive.  

Então, tem pandemia, tem o caso do Afeganistão, tem corrupção e tudo mais. A gente sabe, você ligou a televisão e assiste telejornal de uma hora é só coisa ruim, é só negatividade.

E eles tiveram que buscar notícias positivas desde o ano passado até agora. Encontre algo de positivo no mundo. 

Teve o 8º M2, sexta-feira passada, onde todos os alunos trouxeram notícias, todos. E eu tive que ouvir um por um. 

E como você trabalha a questão do uso da tecnologia no Semente? Você aborda as questões positivas e negativas? 

A gente usa a tecnologia para eles fazerem pesquisa durante a aula, como foi o fato de procurar coisa positiva. Uma hora eles procuram e isso é rapidinho.

Acabamos trabalhando também as fake news, porque é a forma que é dita alguma coisa. 

Você pega seu celular e abre no Google, você tem várias notícias. E muitas dessas notícias o tema não bate com o que está sendo dito. 

Então aqui quando a gente trabalha a forma de você passar uma mensagem, a forma de você se comunicar e se expressar, que cuidados devemos tomar, tomar cuidado para não ofender ninguém.

Como teve no Fantástico sobre os haters, eles assistiram porque remeteu a uma unidade do livro. 

“Prof, eles nem conhecem a pessoa e eles vão lá e ofendem”. 

E eu falei “e qual o intuito disso? Só magoar. Como que a gente resolve? O que a gente poderia fazer?”. 

Então eu falo, para eles utilizarem as redes sociais deles para propagarem coisas positivas, que sejam verdadeiras, que estudem e investiguem. 

Estou com um pensamento de até o final do ano fazer um projeto particular que seria “o que eu faço de bom, eu divulgo e aí eu duelo alguém”. 

Então, por exemplo, “eu gosto de te escutar, se você tem um problema vem desabafar comigo. E você, o que faz de bom?” e eu marco uma pessoa. Aí eles criam essa corrente para que todo mundo demonstre o que pode fazer de positivo.

Como você acha que eles lidam com o Semente fora da sala de aula? Com os amigos, com a família… Você acha que eles dividem esse conhecimento deles com outras pessoas?

Com os amigos, eles ainda precisam contaminar e pela faixa etária deles às vezes existe uma vergonha ou timidez. Porque se eu tenho um grupo com 5 amigos e eu aprendi isso no Semente, não é a todo momento que ele vai se sentir a vontade com os amigos de pregar aquilo.

Com a família a gente já tem resultados e as pessoas falam o que acontece. Os pais no caso falam que muda o comportamento, que eles muitas vezes querem passar as informações pros pais.

Então eles fazem, pra família é mais fácil. Para os amigos, se forem da sala que está trocando o mesmo assunto, eles corrigem.

Agora, se for um grupo que não tem esse conhecimento do Semente eles ainda não compartilham. 

Como você torna suas aulas mais dinâmicas? 

O livro é só orientação, né…Fazemos duas aulas uma unidade, tudo que está ali, os exercícios, as tarefas de casa e depois as nossas situações. 

Então, eu dou exemplos meus, tantos positivos como os negativos que serviram de exemplo e peço para que eles tragam também. 

Tem essa troca de informações e a parte que eles mais gostam. A parte do material eles fazem, eles questionam. Mas, quando vamos dividir como ocorre em nossa vida eles levantam as mãos e querem compartilhar.

Mas, eles cobram muito. Eles querem saber de mim, até por ser mais velho e ter vivido mais experiências, eles querem saber. 

Como você acha que eles empregam esse conhecimento do Semente nas outras disciplinas? 

Aqui no colégio eu falo com os outros professores e eles empregam, eles cobram. Porque eles começa a avaliar o ser humano. 

Por nós sermos mais velhos e de estarmos a frente deles, e por muitas vezes ser dito que nós estamos para orientá-los para o melhor.  

Então, quando tem professores que às vezes agem de uma forma que não bate com o que eles aprenderam, de uma forma muito sútil, eles indagam, eles questionam.

A gente sempre remete que eles serão adultos e o Semente muitas vezes traz isso, “você criança é assim, e quando for adulto?”.

Então a gente já está se moldando, eles acabam moldando alguns adultos, os pais, os professores.